As mídias digitais artificializam as relações interpessoais?

Desenvolvimento interpessoal é o processo que envolve os diversos tipos de experiências vividas pelo indivíduo em um determinado ambiente social, onde por intermédio das interações humanas ele cresce, se desenvolve e se aperfeiçoa, conforme os paradigmas da sociedade onde está inserido. 

 No que diz respeito à classificação do que seja uma pessoa desenvolvida, isto será determinado pelas convenções do grupo social onde ela vive. Todo o indivíduo que não atender aos paradigmas do que seja ser desenvolvido, o que implicitamente pressupõe progressos em termos comportamentais, será considerado não desenvolvido, ou seja, uma pessoa cujos comportamentos apresentam atos falhos, frustrando suas expectativas pessoais e as expectativas do grupo ao qual influencia e por ele é influenciado.

William Schutz, estudioso das relações interpessoais, afirma que há determinadas necessidades humanas que só podem ser supridas mediante a convivência em grupo. Conforme suas abordagens, os indivíduos têm três necessidades básicas: inclusão, controle e afeição. No que se refere a inclusão, é possível citar como exemplo as ações desenvolvidas objetivando dar as mesmas oportunidades de acesso ao mundo digital às pessoas de baixo poder aquisitivo, o que é mais fácil àquela cuja condição financeira é no mínimo razoável, permitindo a elas acessar aos recursos tecnológicos disponíveis.

O avanço consolidado da internet estabeleceu um novo modelo de relacionamento. Pessoas naturalmente inteligentes se relacionam à distância, usando como meio e forma a inteligência artificial. Isto implica reconhecer que há uma interação humana, nos mesmos moldes de qualquer outra que se dá quando os indivíduos estão frente a frente fisicamente. E por que é possível afirmar isto? Porque ainda que as pessoas estejam a milhares de quilômetros de distância umas das outras, elas estão conectadas.

Alguém poderia questionar: Mas, se a relação entre elas utiliza um meio artificial, seu relacionamento, não seria, também, artificial? Não necessariamente. Quem de nós nunca se emocionou diante da televisão ao ver uma cena tocante? Se isto ocorre é porque o meio utilizado para conectar os indivíduos foi capaz de provocar à distância a mesma emoção que ocorreria se estivessem frente a frente, fisicamente. Aí, você poderia questionar outra coisa: Então quer dizer que as pessoas não precisam conviver num relacionamento próximo, se tocarem, se abraçarem, sentirem suas características humanas comuns? O meio eletrônico substitui plenamente as relações interpessoais presenciais? Evidentemente que a resposta é não. No entanto, a discussão não é se o meio artificial substitui, mas sim se ele impede ou artificializa os relacionamentos.

Pense em uma mãe cujo filho foi enviado para a frente de batalha. O único meio que eles têm de se verem e se ouvirem é o skipe. No momento em que eles se conectam eletronicamente e esta mãe vê o rosto de seu filho, o que você imagina que ela sente? Frieza, porque o meio é artificial ou se emociona profundamente por vê-lo vivo e bem? Neste caso, o relacionamento interpessoal entre mãe e filho se estabelece de forma circunstancial, haja vista que não haveria outro modo disto acontecer. No entanto, a imagem do filho gerada no monitor da máquina substitui a presença do filho em casa, junto a ela? Certamente que não! Contudo, nem por isto a conexão ocorrida por intermédio de uma inteligência artificial, torna as emoções artificiais.

Agora, suponha que esta mãe não tivesse condições de ter acesso a um computador, o que a impossibilitaria de ver e ouvir seu filho – como ela se sentiria? Bem, não dá para descrever todas as emoções e sentimentos de uma mãe nestas condições, porém uma coisa se pode afirmar: ela se sentiria excluída do grupo daquelas que podem contatar seus filhos. Portanto, a necessidade desta mãe e deste filho só poderia ser suprida por intermédio da inclusão de ambos no grupo das pessoas que têm acesso ao mundo digital.

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